Brasil deveria acolher exilados russos, afirma pesquisadora

Desde a invasão da Ucrânia, em 24 de fevereiro, a socióloga Svetlana Ruseishvili tem recebido uma enxurrada de perguntas de russos e belarussos interessados em migrar para o Brasil. São ativistas contrários à guerra e a Vladimir Putin, mas também profissionais de classe média –e jovens nômades digitais— que temem perder a liberdade e o padrão de consumo com o isolamento do país pelo Ocidente.

Nascida na Geórgia em família russa, criada na Ucrânia e formada em sociologia em Moscou, Ruseishvili é doutora pela USP, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello na UFSCar e especializada no estudo da diáspora russófona no Brasil, dos exilados da revolução bolchevique às migrações eslavas atuais.

Segundo ela, o Brasil nunca foi a primeira escolha para emigrantes russos, mas entrou no radar diante das barreiras impostas pelas nações ricas a cidadãos dessa nacionalidade –diferentemente de ucranianos, eles precisam de visto para entrar na maioria dos países europeus, e esse documento tem sido cada vez mais difícil de conseguir.

A não exigência de visto de entrada pelo governo brasileiro, porém, não resolve a situação de quem queira morar por mais de seis meses —tempo limite para a permanência de visitantes. Por isso, Ruseishvili defende que a portaria de acolhida humanitária a ucranianos, publicada poucos dias após o início da guerra, seja estendida também a exilados russos.

“O Brasil tem poucas opções para a regularização de estrangeiros. Quanto maior o fluxo por causa dessa nova dinâmica migratória, mais gente ficará em situação insegura.”

Quem são os russos que estão deixando o país? É uma população mais jovem, de classe média, moradora das grandes cidades. A juventude vive um clima de insegurança extrema, teme a perseguição, a mobilização para uma guerra generalizada.

São ativistas antigoverno? De 2014 [ano da anexação da Crimeia por Moscou] até agora, os que saíam eram ativistas de direitos humanos, artistas, jornalistas. Hoje há um perfil novo, pessoas de classe média com um padrão de consumo muito alto e que não querem perdê-lo. E muitos jovens que possuem rotinas flexíveis, profissionais de tecnologia que trabalham de casa, podem viver um nomadismo digital.

O que não vejo é a saída de russos com vínculos de trabalho mais estáveis, bem remunerados, famílias grandes. Muitos deles se opõem à guerra, mas sair não é uma decisão fácil. Os emigrados do século 20 saíram achando que o governo bolchevique iria cair e eles voltariam, mas morreram no exílio. Hoje há uma consciência de que isso pode acontecer novamente. O povo russo entende que algo mudou, que a Rússia nunca mais será a mesma.

Existem dados que dimensionem o tamanho desse autoexílio? Não podemos esperar nenhum número de dentro da Rússia, porque o governo não vai querer divulgá-los. Estamos acompanhando os dados dos países de destino. A Armênia relatou ter recebido 80 mil russos, a Geórgia, 25 mil. Alguns colegas estimam que ao menos 200 mil russos emigraram, mas isso é provavelmente subestimado.

Como Putin reage a esse êxodo? Existe uma vontade política de fechar o país, de criar uma nova cortina de ferro. Em um discurso, ele desdenhou daqueles que querem sair, disse que são inimigos do povo. Por outro lado, o regime tem dificultado a saída. Nas fronteiras, especialmente homens jovens estão sendo revistados, pressionados por policiais. Companhias aéreas russas estão suspendendo voos para o exterior, e o trem que ligava São Petersburgo à Finlândia foi suspenso. Está muito difícil sair.

Para onde esses exilados estão indo? Os russos, diferentemente de ucranianos, precisam de visto para entrar em praticamente todos os países europeus, e desde o início da guerra está cada vez mais difícil obter o documento. Em fevereiro, a Bélgica chegou a propor que a União Europeia suspendesse vistos para russos e belarussos. Os EUA suspenderam de fato a emissão de vistos nos consulados na Rússia.

Então eles têm capacidade reduzida de se moverem pelo mundo, estão fugindo para países próximos como Geórgia, Quirguistão, Armênia e Turquia.

É um fluxo contrário ao que acontecia até agora, certo? A Rússia é o quarto país com a maior população de imigrantes, e a maioria vem desses países. Só que agora esse fluxo se inverteu. Ontem um colega russo disse que está diminuindo o número de imigrantes dessas ex-repúblicas; parte está voltando.

Como os russos estão sendo recebidos nesses países? Na Geórgia, está complicado. Os georgianos têm a memória da invasão russa e se viram no que está acontecendo na Ucrânia. Eles têm muito ressentimento. Na Armênia a situação é melhor, por ser um país aliado. No Quirguistão a questão é mais a quantidade de pessoas. É um país não tão grande, que vive uma crise econômica.

Na Turquia, tem sido feito um paralelo histórico com a época em que os russos foram para Constantinopla fugindo da revolução bolchevique. Agora Istambul virou novamente destino para o êxodo russo. Mas temos de nos perguntar para onde eles vão depois. Porque a Turquia já tem muitos refugiados sírios e um governo pró-Putin. Por isso, os emigrados russos devem procurar outros países para residir.

É aí que entra o Brasil? A América Latina nunca foi destino preferencial para os russos, mas no contexto atual pode se tornar. Eu vejo o interesse aumentando, novas pessoas perguntando nas redes sociais como sobreviver no Brasil, como tirar documentos. São pessoas que não têm ligação com brasileiros, conhecimento de português, nada. Nossos telefones estão explodindo de tanta gente perguntando.

Além da facilidade de entrada, que outros fatores trazem os russos para o Brasil? É um país economicamente estável, em vias de desenvolvimento. E é próximo aos EUA, muitas vezes encarado como uma parada estratégica.

Os russos têm sido discriminados em alguns países ocidentais. Isso é levado em conta? Isso aparece o tempo todo nas perguntas de quem quer saber informações sobre migrar para o Brasil. E a resposta, de se existe ou não russofobia, não é unanimidade entre a comunidade.

Tirando alguns casos até ingênuos de cancelamento de pratos russos em restaurantes, não acho que haja russofobia no Brasil. Já houve no passado. Na época do Estado Novo, da ditadura militar, isso era muito forte, porque russos eram associados aos comunistas –mesmo tendo fugido justamente do comunismo. Na minha pesquisa, entrevistei pessoas de famílias daquela época que diziam que o pai não queria falar russo com os filhos, que o tio queimou livros em russo, por medo de perseguição.

Hoje existe um desconhecimento, mas não vejo russofobia nem nas relações cotidianas nem no meio acadêmico. Pelo contrário, moro aqui há dez anos e nunca vi tanto interesse pelo tema.

Qual é o perfil da migração russófona no Brasil? Foram três grandes levas. Nas primeiras décadas do século 20, vieram os que fugiam da revolução comunista ou da Segunda Guerra Mundial. Nos anos 1990, com o fim da União Soviética, vieram intelectuais, músicos, a elite acadêmica. A partir de 2012, surgiram esses fluxos mais dinâmicos, que chegam como turistas, passam seis meses, voltam, vivem entre os dois países. Do fluxo mais recente, a maioria veio para reunificação familiar, principalmente mulheres russófonas que vieram casadas ou para se casar com brasileiros.

Por que defende que o Brasil deve incluir russos e belarussos no visto humanitário criado para ucranianos? O Brasil tem poucos caminhos para a regularização de estrangeiros. Depois de seis meses como visitante, o imigrante russo que quer ficar precisa fazer algum curso que permita obter um visto estudantil, se casar ou ter filhos aqui, por exemplo. Nessa nova dinâmica migratória, quanto mais exilados vierem, mais gente ficará nessa situação insegura. A saída mais fácil seria estender o visto humanitário criado para os ucranianos.

Qual é a visão dos imigrantes russos no Brasil sobre a guerra na Ucrânia? Em 2014, houve uma polarização terrível, muita gente parou de conversar. Agora eu não vejo uma briga aberta, em parte porque a gente tem contato com diferentes fontes de informação, é difícil alguém ser iludido pela propaganda putinista de que não existe guerra. E também porque as pessoas não se expõem, têm medo da vigilância, de que a família sofra retaliação na Rússia. Existe um grupo de ativistas mais restrito que faz protestos, mas muitos ficam calados e é difícil saber se estão apoiando a guerra ou com medo de se manifestar.

Como estão seus familiares na Ucrânia? Parte da minha família vive em Odessa. Eles continuam lá. Meus parentes de Kiev saíram, depois de pressionarmos muito. Minha avó tem 87 anos, imagina como foi difícil para ela. Agora cada um está em um canto. Tem gente dentro da Ucrânia, na fronteira, tem gente na República Tcheca, minha avó está na Itália. Cada um foi para onde conseguiu fugir.


Raio-x | Svetlana Ruseishvili, 35

Nascida na Geórgia e criada na Ucrânia, é graduada em sociologia na Universidade de Moscou Lomonossov, mestre pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e doutora pela USP, onde pesquisou a imigração russa no Brasil após a revolução bolchevique de 1917. É professora do Departamento de Sociologia da UFSCar (Universidade Federal de São Paulo) e coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello para refugiados na instituição.

Source link

Amazon Coaching Grátis

Venda 25K Dólares com apenas um Produto no Amazon.

Artigos Relacionados

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

1 × 3 =

- Ana Pereira -spot_img

Últimos Artigos